Ciclos da vida adulta

J. Ramón F. de la Cigoña sj

ramonsj@etefmc.org.br

 

ciclos Viver é caminhar numa estrada sempre nova, sem saber o que haverá após cada curva. Quando pensamos conhecer o caminho, novos desafios aparecem. Desse modo, envelhecemos aos poucos. O Qohelet, observador judeu da vida humana, não é um niilista, mas um crente “sábio” que vê a vida a partir de sua experiência de adulto. Ele se desencantou com muitas coisas; outras simplesmente sumiram ficando, apenas, algumas lembranças como dom precioso de Deus. Esse pregador do Antigo Testamento sabia que nada é eterno: “Tudo tem o seu momento e cada coisa o seu tempo...” (Ecl 3, 1)

 Tudo passa, menos o que aprendemos com o que vivemos. Até a fé e o amor se vivem de modos diferentes nas diversas etapas da vida. Eis os ciclos da idade adulta:

- Idade adulta jovem ( 20 a 40 anos)

- Idade adulta média ( 40 a 60 anos)

- Idade adulta avançada ou Terceira Idade (60 em diante)

Cada fase é qualitativamente diferente, embora façamos nelas as mesmas perguntas:

- Quem sou eu? Consolidamos a identidade pessoal.

- Com quem estou? Os relacionamentos mantidos revelam intimidade, cumplicidade ou nada.

- Que faço? Apesar dos contratempos o projeto de vida não se desfaz.

- Que quer dizer tudo isso? Buscamos novos significados em cada ciclo.

Quando jovens pensávamos que na década dos vinte anos teríamos respondido satisfatoriamente a cada uma dessas perguntas, mas, com o passar do tempo, percebemos que as perguntas continuam e aguardam por novas respostas. Se as experiências no campo da sexualidade e da espiritualidade foram insatisfatórias, nem trouxeram significados profundos, viveremos estes ciclos agressivos, solitários e ranzinzas. Viver superficial e egoisticamente não só sufoca as pessoas como também acaba se deteriorando.

As virtudes teologais (fé, esperança e amor) são fundamentalmente graça de Deus, percebida pela sensibilidade humana. Há pessoas que nada expressam e menos percebem; para eles, a vida não passa de um jogo entre vencedores e vencidos. Uma fatalidade!

Para não perder a esperança e recuperar o sentido da vida é preciso concretizar conscientemente a fé e o amor. Quem não ama, também não crê e, se crê em alguém, é porque ama! Não há fé sem amor, nem amor sem fé. É um mistério: fé, esperança e amor sempre caminham juntas. Evidentemente, as formas concretas de sentir e expressar estas realidades “divinas” (fé, esperança e amor) dependem muito da fase de vida em que nos encontramos. Realidades divinas experimentadas de forma limitada!

Faz pouco tempo participei de um show caseiro, onde uma mãe de família reuniu quase 200 pessoas amigas num auditório para comemorar seus 50 anos. Com carinho e criatividade esta senhora foi contando e cantando as etapas significativas da sua vida, com canções típicas daquela época determinada, acompanhada por um violão, teclado e repercussão. E por uma platéia emocionada e participativa. Começou com Roberto Carlos e acabou deliciando-nos com “Gracias a la vida” de Mercedes Sossa. Com simplicidade e bom gosto ela foi percorrendo o mais significativo dos diversos ciclos da sua vida: infância pobre e sonhadora, adolescência com seus medos, juventude rebelde, início da vida adulta (casamento, profissão, filhos...), segunda fase (consolidação do seu eu e amigos/as...). Tudo com muita humanidade e dignidade!

Viver com sentido as diversas fases da idade adulta traz consigo uma tolerância que se expressa espontânea e positivamente nos relacionamentos mantidos. Muitos não o conseguem.

1. Idade adulta jovem (dos 20 aos 40 anos aproximadamente). Não é clara a passagem emocional para a vida adulta. O seu início é complexo e depende de uma série de fatores externos: acabar o colégio, ter uma profissão, assumir um/a companheiro/a afetivo de caminhada, etc. Para muitos a entrada na idade adulta só acontece quando deixam definitivamente o lar familiar.

Contudo, o processo interno psíquico desta fase começa bem antes de um dia carregar os próprios pertences. O processo de individuação não é mágico e amadurece ao se descobrir novos horizontes e possibilidades junto de outras pessoas. Lembremos a força que tinha o grupo de amigos nos tempos de juventude! Fica-se adulto quando somos capazes de deixar algo por alguém!

Esta primeira fase se caracteriza pela tomada de decisões de grande alcance profissional e vocacional. Algumas daquelas perguntas centrais começam a ser respondidas mais na linha do “ter” e do “fazer”. É muito esforço colocado para melhorar as condições de vida! Na sociedade de hoje, tão competitiva e egoísta, trocam-se facilmente os pés pelas mãos. O dinheiro compra, não poucas vezes, nossos melhores sonhos.

É o tempo também de arriscar e de se abrir para novas experiências, moradia e pessoas. Abrimos nossa cabeça com os estudos universitários e o coração pelo casamento e formação de uma família ou comunidade. Aos poucos, surge o peso da responsabilidade, pois um dia nos encontramos formados, trabalhando e com alguém ao nosso lado. O celibato por causa do Reino dos Céus exige um contínuo discernimento, para poder seguir outro caminho, quase na contramão. Quando o amor é sincero, sempre cabe mais alguém para cuidar e ajudar a crescer.

Nesta fase de consolidação do amor, às vezes nem todos os relacionamentos suportam o peso dos conflitos. Há situações insuportáveis e que sufocam as pessoas! Quando isto acontece, os sonhos se esvaem e ficamos curtindo, sozinhos, nossas decepções e lembranças. Contudo, a vida é mais forte e logo se encontra uma nova forma de recomeçar e continuar amadurecendo.

2. Idade adulta média (dos 40 aos 60 anos). Há uma mudança séria nas prioridades daqueles que chegam a esta idade, onde responsabilidade e aventura por vezes ainda se entrechocam. Experimenta-se a crise do “demônio meridiano” ou da “idade da loba”.

Muito se tem falado e escrito sobre esta crise experimentada por aqueles que se aproximam da metade da vida. Se estamos no auge de nossas forças físicas e de eficiência profissional, também experimentamos o cansaço e a monotonia da vida. Os relacionamentos afetivos, vividos nas etapas precedentes, passam, agora, a ser percebidos de modo diferente. Desconfia-se da veracidade de tudo e, sem algum discernimento se buscam novas aventuras e resultados. Na verdade, quando começamos a sentir a diminuição das próprias forças, abre-se a possibilidade de confiar mais nos outros e em Deus, ou de viver na sedução do efêmero e passageiro!

Se na primeira metade da vida nos relacionamos mais com as coisas exteriores, nesta outra metade que se inicia, nos orientamos mais para o mundo dos valores e da interioridade. É o momento de viver a verdade, por ter uma percepção mais clara das qualidades e limitações humanas. A imaginação, essa louca da casa, teima por viver o que até agora não se fez. Quantas vocações sucumbem nesta fase!

Contudo, a realidade se impõe e provavelmente percebemos que nada é tão maravilhoso e, como o Qohelet do AT confessamos, por experiência, que tudo tem o seu momento certo. Por isso, tornamo-nos mais compassivos conosco e com os que amamos e estamos mais atentos às necessidades alheias. A vida é tão frágil! E, evidentemente, tratamos o corpo com mais cuidado...

É também o tempo de se reconciliar com a morte. Enfrentamos, com fé ou não, o falecimento de alguns seres queridos... O tempo corre depressa e vemos que outros começam a viver o que antes tínhamos vivido! Os jovens que estão ao nosso lado têm vida própria e os toleramos porque ainda os amamos.

Sem quase perceber chegamos ao meio-dia da vida onde o calor é mais intenso e a visibilidade também!

3. Idade adulta avançada ou Terceira Idade (dos 60 anos em diante). Com o avanço dos recursos na área de saúde e melhorias na distribuição de renda, fizeram desta fase da vida, para muitos, “a melhor idade”

Uma das experiências mais plenas da vida adulta é a de ser dono do seu nariz, não havendo mais a obrigatoriedade do trabalho profissional nem a responsabilidade direta dos filhos, pois estes já construíram os seus lares. Nesta fase da vida as pessoas sabem, geralmente, quem são, com quem querem estar e qual o sentido da vida que levam.

A liberdade conquistada convive com os logros e as perdas sofridas. A vida ensinou a valorizar o tempo de amar e o de saber se desprender daqueles que amamos. As pessoas tomam o seu rumo e cada um fica com o que quer ou pode, sem tristezas nem lamentações.

A idade adulta avançada também é uma oportunidade para colocar no seu devido lugar as perdas amorosas e os novos momentos da vida. O maior desafio é viver o presente, sem se refugiar no passado. Nesta altura da vida as pessoas não se importam muito com a sua auto-imagem nem a opinião dos outros, pois são o que são. Livres das mágoas passadas, sejam pessoais (esposa/o, filhos, amigas/os, pais) ou institucionais (Igreja, Comunidade religiosa, Deus...), curtem mais o positivo das possibilidades.

Já não somos o que éramos e sentimos mais o cansaço do corpo. Provavelmente, e mais por pressão do que por virtude, decidimos manter atitudes educadas e positivas com todos, embora experimentemos outras experiências recorrentes como a solidão, a exclusão funcional e até a emocional. O casal aprende a viver sem os filhos e, às vezes, sem o companheiro de caminhada.

O ideal desta etapa seria centrar-se mais na vivência interior e nos relacionamentos significativos (familiares ou de amizade). Casados ou não, todos precisamos da presença física dos outros, da palavra amiga e do apoio carinhoso dos outros.

Na medida em que envelhecemos tudo fica relativo, menos os valores essenciais que cultivamos. “Enquanto o homem exterior se corrompe, o interior se renova, dia a dia”. Até que um dia, perto do fim da caminhada, possamos olhar o passado e agradecidos poder dizer: “Gracias a la vida que me há dado tanto!

Para pensar e partilhar:

1. “Deixa tua casa!...” que imagens ou sentimentos isso evoca em você? O que construiu no decorrer dos anos?

2. Quais as mudanças mais significativas na sua história relacional e psico-sexual da idade madura?

3. Há “perdas necessárias” (inevitáveis...) e outras “desnecessárias”... Como você elaborou as primeiras e se enrolou nas últimas?