UM MOVIMENTO DE FRONTEIRAS – OS FOCOLARES COMO SUJEITO INTERNACIONAL
A BORDER MOVEMENT - FOCOLARE AS INTERNATIONAL SUBJECT
Entre os atores internacionais não estatais está também o Movimento dos Focolares, escolhido neste artigo como nosso objeto de investigação descritiva e hermenêutica, pela sua influência em vários setores, inclusive o econômico-internacional, onde se insere a experiência da Economia de Comunhão (EdC). Trata-se de artigo sobre o Movimento dos Focolares como sujeito coletivo, apresentado e interpretado em chave internacionalista, onde o autor procura identificar alguns dentre os possíveis motivos de sua difusão no mundo e seu papel como promotor de unidade entre sujeitos coletivos diferentes nas regiões de fronteira, compreendidas como espaços fixos ou móveis (fronteiras culturais) de encontro entre sujeitos diferentes. A unidade (local e internacional) proposta por Lubich tem, a nosso aviso, como característica peculiar, o apreço pela diversidade, considerada como seu pressuposto permanente.
Palavras-chave: Unidade, diversidade, fronteiras culturais, reciprocidade, amor mundi
Among the non-state international actors we found also the Focolare Movement, chosen in this article as our object of descriptive and hermeneutics research, for his influence in diferent fields, including the economic and international one. In this field, emerges the experience of the Economy of Communion (EdC). This work deals of the Focolare Movement as a collective subject, introduced and interpreted from an international point of view, where the author try to identify some of the possible reasons for its spread in the world and its role as promoter of unity between collective subjects in different border regions, understood as fixed or mobile places (cultural boundaries) of encounter between different subjects. The unity (local and international) proposed by Lubich has, from our point of view, as special feature, the appreciation for diversity, considered her permanent pressuposition.
Key-words: Unity, diversity, cultural boundaries, reciprocity, amor mundi.
Além de Estados e empresas, nas últimas décadas está se consolidando um terceiro sujeito coletivo com atuação organizada em política internacional: a sociedade civil. O Estado nacional é ator tradicional e, certamente, o principal. Empresas atuam no âmbito do mercado internacional, influenciando a política internacional. Junto a esses dois sujeitos se identifica a “emergência de um novo eixo constitutivo na política internacional: o da sociedade civil”, cujos atores são as conhecidas Organizações Não Governamentais (OLIVEIRA, p.293).
Segundo Marcelo de Oliveira, professor de Relações Internacionais, a consolidação da sociedade civil como ator internacional é devida ao desenvolvimento das “novas tecnologias da informação” (Ibidem, p.288) associado ao “rompimento da divisão tradicional que havia na política tradicional entre questões domésticas e externas” (Ibidem, p.293). O Estado não é mais o único ator relevante. A sociedade civil, por meio de sujeitos coletivos multiformes, influencia direta ou indiretamente nas questões de política internacional, como grupos de formadores de opinião, atuando junto aos meios de comunicação de massa ou influenciando diretamente os tomadores de decisão, numa época em que “os assuntos de política internacional tornaram-se de interesse coletivo de todos os atores” (Ibidem, p.289). Os novos atores não estatais atuam abertamente no âmbito internacional ou “na clandestinidade, como é o caso do terrorismo” (Ibidem, p.290). A opinião pública mundial é reconhecida como força política relevante e torna-se objeto da atenção dos formadores de opinião, sujeitos coletivos internacionais não estatais provenientes do terreno multiforme da sociedade civil, com uma organização interna satisfatória para a realização de seus objetivos.
Entre os atores internacionais não estatais está também o Movimento dos Focolares, escolhido neste artigo como nosso objeto de investigação descritiva e hermenêutica, pela sua influência em vários setores, inclusive o econômico-internacional, onde se insere a experiência da Economia de Comunhão.
Na definição de uma recente publicação italiana,
o Movimento dos Focolares é uma presença mundializada e localizada. É uma realidade civil, religiosa e cultural, empenhada nos mais diversos âmbitos, da política à comunicação, da medicina à arquitetura, da psicologia à espiritualidade. Ocupa-se da pessoa humana: famílias e jovens, leigos e religiosos. Uma presença de diálogo, em todos os níveis da vida em sociedade. Uma palavra sintetiza os focolares: unidade, declinada em mil modos diferentes” (ZANZUCCHI, 2009, p.146).
O Movimento dos Focolares (MF) nasceu em 1943, na cidade de Trento, norte da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, fundado pela italiana Chiara Lubich (Trento 1920 – Roma 2008), sem que ela tivesse pensado em criar um movimento social católico. Lubich afirmou que pretendia apenas viver com suas amigas trentinas um cristianismo focado na integração comunitária . Para Lubich, o nascimento de seu movimento está diretamente relacionado à realização de um trecho do evangelho de João: “Pai, que todos sejam um” (João 17, 21), interpretado em chave mais internacionalista do que apenas ecumênica. A busca da unidade entre todos os sujeitos tornou-se o leitmotiv de Lubich, que não confunde unidade com padronização, uniformidade. A unidade (local e internacional) proposta por Lubich tem, a nosso aviso, como característica peculiar, o apreço pela diversidade, considerada pressuposto permanente, obrigatório, da unidade.
Professora de ensino fundamental, Lubich não pode cursar filosofia, na universidade de Veneza, por causa da guerra. Em pouco tempo, criou-se ao redor dela um movimento que, hoje, está em 182 países, nos cinco continentes, contando com a participação de pessoas de todas as classes sociais e de todos os credos religiosos, inclusive agnósticos e ateus.
De Trento, o movimento - que foi chamado de Focolares (em italiano, lareira, parte aconchegante da casa) não por Lubich, mas pelos que dele principiaram a participar (ZAMBONINI, p.75) – difundiu-se por toda a Itália, pela Europa e, em seguida, América Latina e do Norte, Ásia e África. Em um dos primeiros encontros internacionais, nas montanhas de Trento (Dolomitas), em 1959, estavam presentes já 10.000 pessoas, com representantes de 27 países, não somente da Europa, mas, também, de outros continentes. Foi quando Lubich lançou a proposta de “amar a pátria alheia como se fosse a própria”. Tema que foi objeto de sua reflexão também no Palácio de Vidro da ONU, Nova Iorque, em 1997, quando pronunciou um discurso por ocasião de uma homenagem que recebeu durante um simpósio organizado pela World Conference on Religion and Peace (WCRP) .
Em 1961, após um encontro de Lubich com alguns pastores luteranos na Alemanha, teve início a atividade ecumênica do Movimento dos Focolares. Depois, encontrou, em Istambul, o patriarca ecumênico ortodoxo Atenágoras I. Instaurou-se um relacionamento de amizade entre os dois que levou Lubich a realizar 08 viagens, de 1967 a 1972, como intermediária entre o papa Paulo VI e o patriarca ecumênico. Em 1977, por ocasião do recebimento do Prêmio Templeton para o progresso da religião, na Inglaterra, Lubich foi procurada por personalidades do mundo judeu, muçulmano, budista, hindu e com todas elas passou a dialogar de forma assídua, sistemática.
Dos templos budistas do Japão e da Tailândia, aos centros hinduístas da cidade de Bombaim, Chiara chegou, em 1997, à histórica mesquita muçulmana Malcom X, na cidade de Nova York, onde, pela primeira vez, uma mulher católica e branca foi convidada a falar a muçulmanos afro-americanos.
Recebeu inúmeros reconhecimentos, da UNESCO, do Conselho da Europa e de outras organizações internacionais, além de Doutorados Honoris Causa e Cidadanias Honorárias em diversas partes do mundo. Criou projetos inovadores no âmbito político e econômico de alcance internacional, como o Movimento Político pela Unidade, e a Economia de Comunhão, criada no Brasil, em 1991.
Entre os membros do MF estão as focolarinas e os focolarinos a vida comum (leigos e leigas com votos de pobreza, obediência e castidade) e as focolarinas casadas e focolarinos casados (que assumem compromissos com o ideário focolarino de acordo com as exigências do próprio estado de vida). Casados e celibatários fazem parte do mesmo focolare, distintos em focolares masculinos e femininos. Vivem do próprio trabalho e, geralmente, fazem cursos universitários ou outros para exercerem uma profissão específica de forma mais qualificada. Praticam a comunhão de bens. Os focolarinos e focolarinas a vida comum compartilham todo o próprio salário, mensalmente, e os casados e casadas compartilham parte do próprio salário, de forma livre, consensual, tendo em conta as responsabilidades econômicas inerentes ao próprio estado de vida, e tendo em conta o consentimento do cônjuge a respeito de tal comunhão de bens. Os focolarinos a vida comum residem na casa chamada de focolare. Os casados e casadas residem em suas casas, com suas famílias, e frequentam com assiduidade a casa denominada focolare. Além disso, quando os focolarinos casados têm como cônjuge uma focolarina casada, e vice-versa, tais experiências e casas de suas famílias são denominadas família-focolare (FONDI, p.227).
Focolares são casas de comunhão de vida, talentos e bens materiais, onde vivem em torno a sete focolarinos (focolares masculinos) ou sete focolarinas (focolare feminino). Tais casas funcionam como centros de convergência e de difusão de todos os membros, aderentes e simpatizantes do MF. Durante o dia, os focolarinos e focolarinas trabalham em suas respectivas profissões e locais de trabalho, dedicando-se às atividades do MF durante as noites e finais de semana. Todavia, não há distinção moral entre atividade profissional e atividade pelo MF. No desenvolvimento da própria atividade profissional os focolarinos e focolarinas já estão realizando suas atribuições de focolarinos, pelo que a fundadora denomina de santificação do mundo por meio do trabalho profissional (BENAGLIO; VENTURINI, p.23-98). Daqui emerge uma característica típica do modo focolarino de ser, segundo Lubich. Ela não recomenda a fuga do mundo, para santificar-se fora dele, mas a inserção no mundo (da economia, política, educação, etc.), para santificar-se coletivamente no mundo, transformando a sociedade (LUBICH, 2004).
Amor mundi em vez de fuga mundi, posição relativamente próxima ao amor mundi de Hannah Arendt (1906-1975), entendido como responsabilidade política e econômica pelo mundo, e responsabilidade internacionalista, ou seja, ama-se não apenas o próprio grupo nacional ou religioso de pertença, mas toda a comunidade internacional de pessoas, mesmo se em posições de pertença nacional e cultural diferentes, o que leva à responsabilidade por todo o mundo, e não apenas responsabilidade pelo próprio grupo de pertença. Mundo, para Arendt, significa “conjunto de artefatos e instituições criadas pelo homem, que permitem que eles estejam relacionados entre si sem que deixem de estar simultaneamente separados”. Tal mundo, pelo qual se é responsável, não possui aquela valência religiosa negativa de mundo entendido como lugar da vaidade, do pecado, do qual se deve fugir. Para Arendt, mundo é o “espaço institucional que deve sobreviver ao ciclo natural da natalidade e mortalidade das gerações, e que se distingue dos interesses privados e vitais dos homens que aí habitam, a fim de que se garanta a possibilidade da transcendência da mortalidade humana por meio da memória e da narração das estórias humanas”.
Em vez da “fuga do mundo para dentro de si, origem do moderno subjetivismo filosófico e das tendências psicologistas do pensamento social contemporâneo, Arendt assumiu como perspectiva privilegiada o cuidado para com o mundo”, que para ela era “instável e inóspito”, “um mundo quase inteiramente regido pela lógica do trabalho e do consumo”. O amor mundi, como “responsabilidade pelo mundo público e comum” está “no âmago do pensamento político” de Arendt e caracteriza, também, de forma semelhante, o pensamento da fundadora do MF. Em Lubich, amor mundi também significa responsabilidade pelo mundo, mas com uma característica específica, a da reciprocidade agápica entre os seres humanos. Em seu discurso na ONU, em 1997, Lubich afirmou que
faz parte também da sensibilidade comum dos protagonistas da vida internacional a necessidade de ‘reinterpretar’ o sentido da reciprocidade, um dos pontos cardeais dos relacionamentos internacionais, e que se encontra também na base da nossa espiritualidade, consequentemente, da nossa ação. Reciprocidade que requer a superação de antigas e novas lógicas de elucidação, estabelecendo, pelo contrário, novos relacionamentos com todos, exigência do verdadeiro amor: agir por primeiro, sem pretender do outro; ver o outro como se fosse nós mesmos e, portanto, ter a iniciativa do desarmamento, do desenvolvimento, da cooperação. Uma reciprocidade que chegue ao ponto de levar cada protagonista da vida internacional a viver o outro, suas necessidades e carências, não somente nas situações de emergência, mas na partilha cotidiana da existência”
Reciprocidade agápica no âmbito da política, da economia, das relações locais e internacionais.
A palavra espiritualidade, empregada por Lubich, indica o conjunto de suas referências teórico-interpretativas. Dado que tais referências teóricas têm origem numa interpretação de Lubich daquilo que a teologia cristã chama de revelação (comunicação considerada revelada por inspiração entre o mundo sobrenatural e o mundo natural), a sua construção intelectual é denominada espiritualidade, teoria e caminho (ação) típicos dos movimentos sociais de caráter religioso.
Interessante notar que tal espiritualidade aberta à transformação da sociedade gerou várias iniciativas concretas, expressões da reciprocidade do amor mundi (agir social agápico) que caracteriza o pensamento e vida de Lubich e do movimento social por ela criado. Foi em tal borbulhar de reflexão e ação coletivas caracterizadas pela reciprocidade agápica que nasceu o projeto EdC. Mas vejamos de forma mais sistemática os dados referentes à estatística geral do MF, sujeita a oscilações, como qualquer balanço estatístico.
Dos 182 países onde o MF está presente por meio de seus membros, aderentes e simpatizantes, há focolares masculinos e femininos em 89 países: 29 países da Europa; 25 da África; 19 da América (sul, centro e norte); 13 da Ásia; 03 da Oceania. Nos demais países, a organização do MF ocorre não por meio dos focolares, mas por meio da organização do movimento em torno a outros tipos de membros, aderentes ou simpatizantes. A diferença entre membros, aderentes e simpatizantes não indica um grau de pertença diferente na adesão aos valores do movimento, mas um tipo específico de responsabilidade na estrutura funcional do MF.
A partir da Itália, cidade de Trento, onde o MF teve início, em 1943, difundiu-se para outras cidades da Itália e, depois, para: Europa, a partir de 1952; América, a partir de 1958; África, a partir de 1963; Ásia, a partir de 1966; Oceania, a partir de 1967.
Atualmente, os membros do MF são 141.400. Aderentes e simpatizantes somam 2.115.000.
O MF é um movimento católico aberto à presença de pessoas de outros credos, que compartilham os valores humanos fundamentais do MF (ZANZUCCHI, 2009). Entre os não católicos, há cerca de 50.000 pessoas pertencentes a mais de 350 igrejas e comunidades eclesiais; mais de 30.000 pessoas de várias religiões, entre os quais judeus, muçulmanos, budistas, hindus sikhs; mais de 70.000 simpatizantes do MF não têm convicções religiosas, são ateus e agnósticos que compartilham os valores sociais, humanos, do MF, e colaboram em suas ações econômicas, políticas, pedagógicas.
A pertença de pessoas não católicas no MF exigiu, dada tal originalidade, o estudo detalhado de tal complexidade na elaboração de seus estatutos – aprovados pela Santa Sé. O nome oficial do MF junto à Santa Sé é Obra de Maria. Ele recebeu sua primeira aprovação pontifícia em 1962, quase 20 anos após seu surgimento, em Trento. Os Estatutos Gerais atualizados foram aprovados com decreto do Pontifício Conselho para os Leigos em 29 de junho de 1990, reconhecendo o MF como “Associação de fieis privada universal de direito pontifício”. Em 15 de março de 2007 houve uma posterior aprovação, da parte do Pontifício Conselho para os Leigos, dos Estatutos do Movimento atualizados com os desenvolvimentos sucessivos.
Segundo seus Estatutos Gerais, o MF será sempre presidido por uma mulher. Somente mulheres podem concorrer à função (eletiva) de presidente do MF, que será coadjuvada por um copresidente e por um conselho formado pelas e pelos responsáveis pelos aspectos gerais da gestão do movimento, pelos e pelas representantes da várias áreas geográficas e ramificações do MF. Mesmo sendo um único movimento, pela variedade de pessoas que o formam, ele se organiza em 18 ramificações: as duas seções, dos focolarinos e das focolarinas, considerados a “estrutura fundamental” do MF; 10 setores (de jovens e adultos, distintos em grupos masculinos e femininos); 06 movimentos de amplo alcance: Famílias Novas, Humanidade Nova, Movimento Paroquial, Movimento Diocesano, Jovens por um mundo unido, Movimento Juvenil pela unidade.
A Assembleia Geral é o principal órgão de governo do MF e se reúne a cada seis anos, em Roma. Entre suas funções: a eleição da presidente, do copresidente e dos conselheiros gerais. A assembleia é composta pelo corpo dirigente central e pelos representantes das 90 regiões territoriais dos cinco continentes, nas quais atualmente o MF está presente.
Dentre as iniciativas do MF estão:
Cultura: “Escola Abba” - Inaugurada em 1990, seu trabalho consiste em aprofundar as concepções teórico-interpretativas do MF, pensamento que dá o rumo às ações coletivas do MF. Tal escola é composta por cerca de trinta especialistas em diversas disciplinas. Desde 1998, participam destes estudos outros 350 docentes e especialistas, de vários países.
Em dezembro 2008, foi criado o primeiro instituto universitário internacional do MF, Instituto Universitário Sophia, situado na Itália, região da Toscana, nas proximidades de Florença.
Economia: “Economia de Comunhão” - Projeto econômico com início no Brasil, em 1991, por ocasião de uma visita de Chiara Lubich. A partir das referências teóricas do MF, Chiara Lubich indicou algumas regras práticas que orientam a administração de mais de 750 empresas e atividades produtivas nos 05 continentes, com a sucessiva criação de 07 polos empresariais, nos arredores de algumas das cidadelas criadas pelo MF no mundo (que veremos em seguida). A experiência da Economia de Comunhão refletiu-se também no campo das ciências econômicas: mais de 140 monografias e teses já foram defendidas em universidades (públicas e privadas) em diversos países, e apresentadas em congressos de estudo promovidos por Universidades e organismos nacionais e internacionais voltados para uma economia da partilha.
Política: “Movimento Político pela Unidade” - Criado em 1996, na Itália, a partir de um encontro entre políticos de partidos italianos diferentes, mas com pessoas animadas pelos mesmos valores coletivos do MF. Difundiu-se pela Europa e América do Sul, especialmente Brasil, Argentina e Uruguai. No Brasil, o Movimento Político pela Unidade difundiu-se entre políticos de vários partidos, por meio também da colaboração decisiva da deputada federal Luiza Erundina, uma das pioneiras na organização do Movimento Político pela Unidade no Brasil. Participam de tal movimento do MF cidadãos, funcionários públicos, políticos de vários níveis e partidos.
A atividade editorial do MF desenvolve-se por meio da revista e editora Cidade Nova. Há, também, uma revista voltada apenas para artigos científicos, Rivista Nuova Umanità, que publica artigos científicos produzidos pelos vários grupos internacionais de pesquisa criados ao redor dos valores sociais do MF.
Especialistas em várias áreas do saber são protagonistas de tais grupos internacionais de estudos que nasceram ao redor dos valores sociais do MF. Entre eles, Comunhão e Direito, com forte presença no Brasil, como o grupo coordenado por uma professora doutora do curso de direito da Universidade Federal de Santa Catarina.
Social-one é o grupo de estudos que reúne sociólogos pesquisadores de todo o mundo, sob a liderança da professora brasileira Vera Araújo, residente em Roma, de onde promove seminários de pesquisa sociológica na Itália e outros países.
Há, também, o grupo que reúne médicos e outros profissionais da área da saúde, intitulado Medicina, Diálogo, Comunhão; o grupo Psicologia e Comunhão; o grupo dos pedagogos e profissionais da educação, Education for Unity; o grupo Clarté, Artistas em Diálogo; o grupo Net One – Media and a United World, de profissionais da área da comunicação social; o grupo Sportmeet – For a United World. Todos eles promovem seminários internacionais de estudos acadêmicos, comunicações e troca de experiências sobre suas respectivas áreas de estudo e atuação.
A editora italiana Città Nuova produz mais de 85 novos títulos por ano. Além dela, há outras 25 editoras do MF em outros países, que publicam mais de 215 títulos por ano. Além da editora, há a revista italiana Città Nuova, quinzenal, e há outras 37 edições no exterior, em 22 línguas. No Brasil, a revista Cidade Nova é mensal, elaborada por jornalistas brasileiros, com quase 30 mil assinantes.
Uma experiência peculiar do MF é a criação de cidadelas pelo mundo, que funcionam como laboratórios para a prática dos valores sociais dos focolares, abertos à participação de pessoas de todos os credos religiosos e culturais, inclusive agnósticos e ateus que compartilham os valores sociais do MF.
Lubich promoveu a criação de cidadelas-laboratório dos valores sociais do MF, expressão do amor mundi que caracteriza o seu pensamento. Em tais cidadelas, os membros, aderentes e simpatizantes do MF transcorrem um período de aprendizado prático e teórico para, depois, ao retornarem a seus ambientes de vida e trabalho, promoverem mudanças sociais nas cidades onde vivem.
Atualmente são 35 as cidadelas do MF, espalhadas pelos cinco continentes, com graus de desenvolvimento diferentes. Apresentam-se como pequenas cidades modernas, com casas, lojas, locais para encontros, centros de arte, ateliês, pequenas e médias empresas que possibilitam o sustento dos habitantes, com as suas igrejas, escolas. Todas elas são abertas para visitação e períodos maiores de convivência. Há residentes fixos, que trabalham em suas estruturas permanentes, e residentes temporários. Em algumas cidadelas - como no Brasil, Argentina, Itália, Bélgica, Portugal - já existe ou está em fase de implantação um polo empresarial, que recebe e reúne empresas organizadas a partir dos valores do Projeto Economia de Comunhão. Cada cidadela possui características próprias.
A mais desenvolvida e com caráter mais marcadamente internacional é a de Loppiano (Incisa Val d’Arno – Florença – Itália), cuja fundação ocorreu em 1964, após a doação de uma área rural ao MF, na Toscana, com uma média, hoje, de 900 habitantes, de 70 nações. Loppiano vive do próprio trabalho de suas empresas, dentre elas, produção de vinho (Chianti) e azeite. Em Loppiano encontra-se, também, a sede do primeiro instituto universitário do MF, o Instituto Sophia, que já citamos.
Marcadamente internacional é também a cidadela de Montet, na Suíça. A cidadela de Ottmaring, na Alemanha, caracteriza-se pelo diálogo permanente entre católicos e luteranos que vivem na cidadela. A de Welwyn Garden City, na Grã Bretanha, caracteriza-se pelo diálogo entre católicos e anglicanos. A de Tagaytay (Manila), nas Filipinas, caracteriza-se pelo diálogo inter-religioso. As três cidadelas situadas no Brasil promovem experiências voltadas para a reflexão e ação pela diminuição das desigualdades sociais: Vargem Grande Paulista (SP), Igarassu (PE) e Benevides (PA). A de O'Higgins, na Argentina, está particularmente voltada para o protagonismo dos jovens na construção de um mundo melhor. A integração cultural em uma sociedade multiétnica é a nota peculiar da cidadela dos EUA, situada nos arredores de Nova York, e da cidadela situada em Krizevci, na Croácia. O tema da inculturação caracteriza a cidadela de Fontem, situada no coração da floresta, na República dos Camarões. Além da de Fontem, estão sendo criadas outras duas cidadelas na África, uma no Quênia e outra na Costa do Marfim.
A cidadela de Rotselaar, situada a poucos quilômetros de Bruxelas, na Bélgica, tem como nota peculiar o enfoque ecológico. Na Europa, existem cidadelas permanentes também na Polônia, na Espanha, França (perto de Paris), Irlanda e Portugal.
Na América Latina, foram também criadas cidadelas no México, Venezuela e Chile, uma em cada um dos países citados. Na Austrália, uma cidadela está sendo iniciada nas proximidades de Melbourne. Em suma, são 35 cidadelas nos seguintes países: Áustria, Bélgica, República Tcheca, Croácia, França, Alemanha, Grã Bretanha, Irlanda, Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Espanha, Suíça, Coreia do Sul, Filipinas, Paquistão, Tailândia, República dos Camarões, Costa do Marfim, Quênia, México, Estados Unidos, Argentina, Brasil, Venezuela, Austrália.
O MF possui também 63 centros de formação pelo mundo, chamados “Centros Mariápolis”, onde a referência a Maria (cidade de Maria) deve-se ao nome oficial do MF, que é Obra de Maria. Tais centros estão em 46 nações. Na Itália, nos arredores de Roma, encontra-se o principal Centro Internacional de formação do MF, com sede em Castelgandolfo (Roma), e capacidade para eventos para mais de 2.000 pessoas. Também nas proximidades de Roma, cidade de Rocca di Papa, está o centro de gestão do MF, onde funciona sua sede administrativa central, com representantes de todo o mundo, eleitos pela assembleia geral do MF para a direção do MF por tempo determinado, junto com a presidente e o copresidente, também eleitos pela assembleia geral do MF.
O MF possui também um centro de produção e difusão de audiovisuais, Centro Santa Clara, equipe de jornalistas que acompanha as atividades do MF pelo mundo. Possui, também, dois conjuntos musicais profissionais, Gen Verde e Gen Rosso, que vivem da produção do próprio material artístico, e fazem shows pela Europa e por países de todos os demais continentes. O grupo “Encontros Romanos” é um centro profissional do MF especializado em turismo, situado em Roma.
O MF realiza, também, algumas manifestações internacionais periódicas, em Roma, transmitidas ao vivo para o mundo inteiro via satélite, com a colaboração de redes de televisão de vários países: o Genfest, festival dos jovens, é quinquenal, o sexto Genfest internacional foi em 2000, e reuniu 25.000 participantes de todo o mundo; o Supercongresso, manifestação dos adolescentes, também é quinquenal, o quarto, em 2002, reuniu 9.000 jovens de 92 países; o terceiro Familyfest, manifestação das famílias, foi em 2005, realizado contemporaneamente em mais de 120 cidades dos cinco continentes.
Dentre as iniciativas de solidariedade internacional do MF estão: Ações por um Mundo Unido (AMU), ONG criada em 1986, para a cooperação internacional ao desenvolvimento, reconhecida pelo Ministério do Exterior italiano; New Humanity (Humanidade Nova), ONG do MF reconhecida pelo ECOSOC, Conselho Econômico e Social da ONU; Adoções à Distância, que beneficia mais de 18.400 crianças, por meio de 96 projetos em 45 países.
Além disso, o MF participa de vários eventos internacionais para os quais é convidado, por meio de seus grupos específicos. Dentre eles, as várias edições do Fórum Social Mundial.
O número de 2.256.400 pertencentes ao MF, entre membros, aderentes e simpatizantes, aumenta se forem acrescentadas as pessoas que entram em contato com os valores humanos e sociais do MF transmitidos por vários meios de comunicação, por ocasião de seus eventos internacionais.
Em 14 de março de 2008, por ocasião do falecimento da fundadora do MF, o presidente do Brasil, Luiz Ignácio Lula da Silva, enviou telegrama onde escreveu que “a senhora Lubich deixa um importante legado, com o qual se identifica uma grande parte do povo brasileiro” (ZANZUCCHI, 2009, p.139).
No Brasil, há focolares masculinos e femininos em várias cidades: Bauru (SP); Belém (PA); Belo Horizonte (MG); Brasília (DF); Curitiba (PR); Florianópolis (SC); Fortaleza (CE); João Pessoa (PB); Londrina (PR); Maceió (AL); Manaus (AM); Porto Alegre (RS); Recife (PE); Rio de Janeiro (RJ); Salvador (BA); São Paulo (SP); São Leopoldo (RS); Teresina (PI); Vitória (ES). Além desses, há vários focolares-família espalhados pelo interior do Brasil, que são aqueles focolares onde os dois cônjuges são focolarinos.
Sobre o MF, o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, que não é de tradição cultural cristã, escreveu: “Um movimento entre os mais difundidos no mundo, em grau de confrontar-se, com espírito aberto, com o mundo leigo sobre a base da supremacia dos ideais humanos e da solidariedade, da justiça e da paz entre povos e nações” (Ibidem, p.138).
Dentre os reconhecimentos públicos que Chiara Lubich recebeu pelo seu trabalho e pelo trabalho desenvolvido pelo movimento por ela fundado, estão:
1)Organismos internacionais: UNESCO - Prêmio Educação para a Paz 1996 (Paris, dezembro de 1996); CONSELHO DA EUROPA - Prêmio Direitos Humanos 1998 (Estrasburgo, setembro de 1998).
2)Chefes de Estado: Brasil – Ordem do Cruzeiro do Sul, conferida pelo presidente Fernando H. Cardoso em outubro de 1998, pelo empenho em favor das classes mais pobres e pela promoção da Economia de Comunhão; República Federal Alemã – Grande Cruz ao mérito, do Presidente da República Johannes Rau (junho de 2000); República Italiana - Cavaleiro da Grande Cruz, do Presidente da República Carlo Azeglio Ciampi (junho de 2003).
3)Ecumenismo: da Igreja Anglicana – Cruz da Ordem de Santo Agostinho de Canterbury, dos primazes anglicanos Robert Runcie (Londres, 1981) e George Carey (Londres, 1996); Da Igreja Ortodoxa – Cruz Bizantina dos patriarcas ecumênicos Dimitrios I (Istambul, 1984) e Bartolomeu I (Istambul, 1995); Da Cidade de Augsburg (Alemanha) – Prêmio Celebração da Paz Augustana entre luteranos e católicos (Augsburg, 1988).
4)Diálogo inter-religioso: Prêmio Templeton pelo Progresso da Religião (Londres, abril de 1977); Da Comunidade Judaica de Roma – Uma Oliveira pela Paz (Rocca di Papa, outubro de 1995); Dos Movimentos hindus de inspiração gandhiana Shanti Ashram e Sarvodaya – Prêmio Defensor da Paz (Coimbatore, Índia, janeiro de 2001).
5)Doutorados Honoris Causa: Polônia – Ciências Sociais – Universidade Católica de Lublin (junho de 1996); Tailândia – Comunicação Social - St. John University, Bancoc (janeiro de 1997); Filipinas - Teologia - Pontifícia Universidade Santo Tomás, Manila (janeiro de 1997); Taiwan - Teologia - Fu Jen University, Taipei (janeiro de 1997); EUA – Ciências Humanas - Sacred Heart University, Fairfield (maio de 1997); México - Filosofia - Universidade San Juan Bautista de la Salle, Cidade do México (junho de 1997); Argentina – Interdisciplinar - das 13 faculdades da Universidade Estatal de Buenos Aires (abril de 1998); Brasil - Humanidades e Ciências da Religião – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (abril de 1998); Brasil - Economia - Universidade Católica de Pernambuco (maio de 1998); Itália - Economia - Universidade Católica de Milão - Sede de Piacenza (janeiro de 1999); Malta - Psicologia - Universidade de Malta (fevereiro de 1999); EUA - Pedagogia - Universidade Católica da América, Washington (novembro de 2000); Eslováquia - Teologia - Universidade de Trnava (junho de 2003); Venezuela - Artes - Universidade Católica de Maracaibo (julho de 2003); Itália - Vida consagrada - Instituto Claretianum - Pontifícia Universidade Lateranense (Roma – outubro de 2004).
5)Cidadanias honorárias: Palermo (Itália), janeiro de 1998; Buenos Aires (Argentina), abril de 1998; Roma (Itália), janeiro de 2000; Florença (Itália), setembro de 2000; Gênova (Itália), dezembro de 2001; Turim (Itália), junho de 2002; Milão (Itália), março de 2004; La Spezia (Itália), maio de 2006; Rocca di Papa (Itália), abril de 1995; Pompéia (Itália), abril de 1996; Tagaytay (Filipinas), janeiro de 1997; Rimini (Itália), setembro de 1997; Chacabuco (Argentina), abril de 1998; Incisa in Valdarno (Itália), setembro de 2000; Rovigo (Itália), dezembro de 2000; Bra (Itália) junho de 2002; Todi (Itália), novembro de 2005.
6)Outros reconhecimentos da administração pública: Região Ligúria (Itália) - Prêmio pela Paz e a Solidariedade, dezembro de 2001; Região Lombardia (Itália) - Prêmio Rosa Camuna, novembro de 2003; Trento (Itália )– Águia Ardente de São Venceslau, janeiro de 1995; Bolonha (Itália)– Turrita de Prata , setembro de 1997; Belém (Brasil) - Brasão das Armas de Belém , dezembro de 1998; Brescia (Itália) - Grosso d'oro, outubro de 1999; Alba (Itália)- Prêmio Cidade de Alba, setembro de 2000; Castelgandolfo (Itália), Prêmio Cidade de Castelgandolfo, Cidade da Paz, abril de 2003; Santa Maria de Capua Vetere (Itália) Prêmio S. M. Capua Vetere, Cidade de Paz, junho de 2003; Frascati (Itália) Civis Tusculanus, setembro de 2004.
7)Reconhecimentos de igrejas locais: Trento (Itália) – Medalha de ouro de São Virgilio - (janeiro de 1995); Eslovênia - Medalha dos santos Cirilo e Metódio - (abril de 1999); Brescia (Itália) - Prêmio da bondade Paolo VI - (setembro de 2005).
8)Outros reconhecimentos de entidades culturais: Medalha de Honra ao Mérito – Universidade de São Paulo (USP), São Paulo (abril de 1998); Placa de prata Cateriniana - Centro cateriniano de Sena (Sena, setembro de 1987); Prêmio Casentino - Centro Cultural Michelangelo - Cidade de Florença, de letras e artes (Arezzo, julho de 1987); I Prêmio Internacional Diálogo entre os povos, do Centro franciscano internacional de estudos (Massa Carrara, Itália, outubro de 1993); Prêmio UELCI: Autor do ano 1995 - União dos Editores e Livreiros Católicos Italianos (Milão, março de 1995); Prêmio civilização do amor pelo diálogo inter-religioso - Fórum Internacional Civilização do Amor (Rieti, Itália, junho de 1996); Prêmio internacional Telamone pela Paz 1999 - Centro de programação social (Agrigento, Itália, novembro de 1999); Prêmio Coração Amigo 1999 - Associação Coração Amigo (Brescia, Itália, outubro de 1999); Prêmio “O Trentino do ano” - Associação Cultural U.C.T. Homem-Cidade-Território (Trento, Itália, junho de 2001); Prêmio Rotary Club (Trento, junho de 2001); Prêmio Stefano Borgia pelo diálogo intercultural e inter-religioso - Centro Internacional de estudos borgianos (Velletri, Itália, novembro de 2001); Lifetime Achievement Award - Family Theater Productions (FTP) de Hollywood (16 julho 2006); Prêmio Thomas Moro - Universidade Católica do Paraguay (Assunção, dezembro de 2006).
Reconhecimento público de entidades leigas e religiosas das ações coletivas, práticas, realizadas a partir de uma espiritualidade focada no amor mundi, entendido como responsabilidade ética e profissional pelas estruturas culturais criadas pelos seres humanos para nelas transcorrerem os ciclos de natalidade e mortalidade.
Em vez de permanecer indiferente ao mundo (no sentido descrito), voltando-se para o que os cristãos consideram ser a cidade definitiva, pela busca exclusiva da salvação da alma, Lubich optou por transformar a referência da Cidade de Deus, que ela chama de Mariápolis Celeste, em paradigma qualificador da Cidade Terrestre, que ela chama de Mariápolis Terrestre, usando suas energias e descobertas intelectuais como instrumentos de ação coletiva pela qualificação dos seres humanos e suas estruturas culturais criadas ao longo da história da humanidade.
Como explicar a difusão na Itália, na Europa e nos demais continentes de tal experiência comunitária (MF) iniciada em Trento por algumas moças católicas insignificantes do ponto de vista político, econômico, cultural e eclesial? A afirmação segundo a qual o motivo de tal difusão encontrar-se-ia num carisma de origem divina, que teria sido doado a Lubich, não é explicação suficiente para a sociologia, economia, história, política, mesmo sendo racional (racionalidade teológica). Para as ciências sociais, não vale o argumento de revelação, mas de observação, descrição, interpretação, dado que são ciências para as quais religião é cultura, ou seja, criação humana.
“Virtù e fortuna” explicam vitórias e derrotas, diria o secretário florentino (MACHIAVELLI, p.47). Na experiência do MF, alguns eventos históricos poderiam ser interpretados como voluntários: criados por Lubich e seu movimento, virtù; outros seriam involuntários, fortuna, ação de Deus, para os crentes, ou coincidência, sorte, acaso, ocasião, segundo os agnósticos.
Nossa hipótese hermenêutica é que o MF difundiu-se entre os católicos italianos e, depois, para fora da Itália e da Europa, entre católicos e não católicos, pela convergência de três fatores.
1)O MF foi criado como movimento horizontal, leigo, com margem de autonomia relevante dos leigos em relação à interferência do clero. Representou a possibilidade, ocasião de qualificação da pertença dos leigos católicos num contexto ainda marcadamente clerical. Permitiu o reconhecimento da identidade e protagonismo dos leigos católicos antes das mudanças produzidas pelo Concílio Vaticano II. A Igreja Católica era comandada por homens do clero. O MF foi liderado, desde 1943, por uma mulher, leiga, ao lado de suas primeiras companheiras, mulheres, leigas.
2)A referência intelectual de Lubich pode ser classificada, do ponto de vista da força sócio-aglutinadora de uma referência teórica, como ideologia do consenso forte e aberto, consenso que foi bem acolhido num contexto de exacerbação dos conflitos, com a trágica demonstração de suas consequências, pelos bombardeamentos constantes que a cidade de Trento estava sendo submetida. Em vários documentos do MF, usa-se a expressão “eram tempos de guerra e tudo desmoronava” e, depois, conclui-se: “Tudo passa, somente Deus permanece”. Mas isso não explica a difusão inicial do MF, pois Deus continuava sendo proposto sem interrupção no, digamos, “mercado” das religiões de então. Havia várias ofertas de Deus em Trento, na Itália e na Europa, antes, durante e depois da Segunda Guerra. No programa de Lubich estava contido não um genérico Deus, ou mesmo um Deus que fosse amor, mas uma experiência forte de consenso social integrador, avaliado como satisfatório (como o demonstra a adesão), de fácil acesso aos leigos, numa sociedade moderna e anômica - segundo a definição de Émile Durkheim -, cuja anomia havia atingido um nível ainda mais dramático pelo quadro de guerra e, também, de guerra na guerra, ou seja, a guerra civil italiana entre fascistas e partigiani (comunistas, socialistas, católicos) no final da Segunda Guerra, período do início do MF. Lubich denominou tal unidade - avaliada pelos novos membros como reconfortante, revigorante e missionária (com uma meta externa à própria comunidade) - com a expressão “Jesus no meio”, em alusão a um trecho do evangelho de Mateus (capítulo 18, versículo 20), onde Jesus teria prometido a presença espiritual confortante dele entre seus discípulos. Fosse ou não fosse Jesus que estivesse entre Lubich e suas primeiras companheiras, está de fato que se tratava de uma experiência forte de consenso comunitário, julgado satisfatório. O nome “focolare” foi dado pelos observadores externos de tal experiência justamente como palavra identificadora de tal consenso, calor humano, “lareira” social, focolare. Numa modernidade em crise de sentimento de pertença (anomia), o Movimento dos Focolares representa a possibilidade de uma experiência com um sentido comunitário válido, satisfatório. Ou seja, a reciprocidade típica do agir social agápico de Lubich, amor mundi focolarino, gerou um consenso social satisfatório num contexto de crise total: guerra, anomia. Divino ou humano, tal consenso social cultural construído por Lubich e focolarinos, cotidianamente, foi fundamental e ainda o é na difusão e sustentação das comunidades focolarinas no mundo.
Protagonismo dos leigos numa sociedade marcadamente clerical (eclesiologia horizontal), e construção de consenso social satisfatório numa sociedade marcadamente anômica explicam a difusão do MF. Mas isso não seria suficiente para explicar o fato do MF não ser apenas católico e italiano. Como explicar a difusão do MF fora da Itália e da Europa, e fora do círculo cultural católico e cristão?
3)O terceiro fator explicativo da difusão do MF parece-nos ter sido construído gradualmente por Lubich ao longo dos anos, das décadas. Sofreu ajustes condicionados pelo tempo e pelo espaço. Lubich focou-se na unidade universal, interpretando o pedido de unidade de Jesus em chave internacionalista (“Pai, que todos sejam um” - João 17, 21), entre todos os seres humanos, de todas as nações e credos culturais diferentes (políticos, econômicos, religiosos). No nosso estudo dos discursos e experiências de Lubich, notamos que a unidade proposta por ela tem como característica peculiar o apreço radical pela diversidade cultural e religiosa, étnica, racial, política de seus interlocutores pessoais e coletivos.
No discurso explícito de Lubich, lê-se unidade; no discurso implícito, lê-se apreço pela diversidade, que significa não exigir que o outro, diferente, renuncie à sua pertença original (conversão), mas solicitar sua adesão ao projeto de unidade permanecendo no próprio lugar (cultural, religioso, político) original de pertença. Em vez de proselitismo e conversão, Lubich propõe um estilo de unidade caracterizado pelo apreço da diversidade. Em vez da unidade da globalização econômica, uniformizadora, padronizadora, a unidade proposta por Lubich caracteriza-se pelo reconhecimento da diversidade como valor, pressuposto obrigatório, permanente, da unidade lubicana, construída pelo exercício da reciprocidade agápica.
Para Lubich, o outro, sujeito pessoal e coletivo, não é destituído de valor, vazio, mas detentor de valor. Em vez de praticar o método da missionariedade proselitista, Lubich e os focolarinos identificam nos sujeitos diferentes os valores contidos no mesmo projeto em comum, de unidade universal caracterizada pelo apreço da diversidade cultural como pressuposto de tal unidade agápica integradora da comunidade humana local e internacional.
Segundo Vera Araújo, uma das principais sociólogas do MF, “a distinção sublinha, preserva e tutela a identidade de cada um, impedindo a sua absorção, dependência ou submissão, mas ao mesmo tempo, mantendo-a na unidade” (2005/6, p.860). E ainda: “Somente graças à distinção cada um se torna ator e toma iniciativas para alimentar e enriquecer a unidade” (2005/6, p.861). Não se trata, portanto, da uniformidade típica de regimes totalitários, que não reconhecem valor na diversidade, e, por isso, exigem a adesão ao modelo imposto pelo sistema da uniformidade. Nem da uniformidade padronizadora da globalização econômica, mas de uma unidade diferente, unidade lubicana, caracterizada pelo apreço da diversidade e exercício da reciprocidade agápica.
Compreendendo fronteira como espaço fixo ou móvel (fronteiras culturais) de encontro entre sujeitos diferentes, afirmamos que o Movimento dos Focolares é um movimento social de fronteiras, situado por opção nas regiões de fronteiras entre as gerações, entre as raças, entre as religiões, entre as nações, entre as etnias. Ele vive nas regiões das fronteiras culturais, realizando e promovendo a realização de exercícios sociais de reciprocidade agápica, voltados para a construção da unidade cuja diversidade é seu pressuposto obrigatório, permanente.
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Os estudos de Émile Durkheim sobre a anomia estão nos livros Da divisão do trabalho social (São Paulo: Martins Fontes, 1999) e O suicídio – estudo de sociologia (São Paulo: Martins Fontes, 2000).
Sobre a guerra civil italiana, de 1943 a 1945, verificar, do italiano Giampaolo Pansa, os polêmicos livros: Il sangue dei vinti. Milão: Sperling, 2003; La grande bugia – le sinistre italiane e il sangue dei vinti. Milão: Sperling, 2006; I gendarmi della memória – chi imprigiona la verità sulla guerra civile. Milão: Sperling, 2007.
*Professor Adjunto de Sociologia na Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Bacharel em Ciências Sociais, Mestre em Ciências Sociais, Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade S. Tommaso DAquino (Roma, 1996). Bacharel em Teologia; Mestre em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense (Roma, 1992). Grupo de pesquisa em integração e conflitos em regiões de fronteira.