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O Evangelho ao centro: a palavra de Leão XIV à Igreja italiana
A descristianização não pode tornar-se um álibi
O discurso pronunciado pelo Papa Leão XIV aos bispos italianos durante a 82ª Assembleia Geral da CEI merece uma leitura atenta e profunda. Embora dirigido diretamente à Igreja da Itália, o seu conteúdo ultrapassa amplamente os limites do contexto italiano e assume um alcance muito mais vasto. Em muitos aspectos, trata-se de uma palavra dirigida à Igreja inteira.
A crise da transmissão da fé, o enfraquecimento da prática cristã, a fragmentação cultural, a dificuldade de envolver as novas gerações e a tentação de substituir o anúncio do Evangelho por uma pastoral excessivamente organizativa não são questões exclusivamente italianas. Elas atravessam grande parte do mundo ocidental e, sob formas diversas, interpelam hoje numerosas Igrejas locais. Por isso, o discurso de Leão XIV não pode ser reduzido a uma intervenção circunstancial destinada apenas à Conferência Episcopal Italiana. Nele aparece uma questão decisiva para a missão da Igreja contemporânea: o que significa evangelizar em um tempo em que a fé já não pode ser presumida culturalmente?
A Assembleia tinha como eixo principal as “Linhas de orientação para o caminho das Igrejas na Itália” e a recepção do Caminho Sinodal. Pedia-se aos bispos a aprovação de perspectivas pastorais para os próximos anos, recolhendo o percurso realizado e identificando prioridades para a vida eclesial. O contexto de fundo já era claro: a fé cristã já não pode ser presumida como patrimônio espontaneamente transmitido, e o Evangelho deixou de ser referência cultural compartilhada pela sociedade italiana.
Contudo, precisamente aqui o discurso do Papa assume um significado universal. A Itália torna-se quase um laboratório eclesial de questões que hoje dizem respeito a muitas Igrejas: como anunciar Cristo em sociedades secularizadas? Como gerar para a fé quando desaparecem os suportes sociológicos da cristandade? Como evitar que a Igreja se torne apenas uma estrutura eficiente, socialmente respeitável, mas espiritualmente estéril?
É precisamente nesse cenário que o discurso do Papa adquire o seu peso real. Leão XIV não permaneceu numa reflexão genérica nem ofereceu palavras de mera circunstância. Entrou diretamente no coração da questão e devolveu à Igreja italiana – e, através dela, a toda a Igreja – um critério decisivo: antes dos métodos, das estruturas, dos processos ou dos organismos de participação, vem o Evangelho.
Nos últimos meses, o Cardeal Matteo Zuppi retomou repetidamente um dado que não pode mais ser ignorado: já não vivemos em um contexto de cristandade capaz de favorecer naturalmente a transmissão da fé. Citando também reflexões do Cardeal Repole, reconheceu que “a transmissão da fé cristã hoje já não é um processo normal, que possa ser dado como certo”. Trata-se de uma constatação lúcida e necessária. Contudo, justamente por isso, exige discernimento.
A descristianização pode tornar-se um diagnóstico honesto quando ajuda a Igreja a compreender a mudança de época e a purificar suas formas pastorais. Contudo, pode também transformar-se num álibi cômodo, quando toda dificuldade é atribuída exclusivamente ao contexto externo: à secularização, à cultura contemporânea, às famílias fragilizadas ou às novas gerações consideradas distraídas. Nesse caso, evita-se a pergunta realmente decisiva: as nossas comunidades ainda são capazes de gerar para a fé?
O discurso de Leão XIV impede precisamente essa acomodação. O Papa reconhece o cansaço das comunidades, a fragmentação cultural, a dificuldade de transmissão da fé e o desafio de envolver os jovens. Não minimiza a crise. Mas desloca imediatamente o olhar. Jesus, afirma o Papa, não contempla primeiramente um problema insolúvel; contempla uma colheita, um campo pertencente a Deus. A primeira missão dos pastores é aprender novamente a olhar com os olhos do Senhor, sem se deixarem aprisionar pela dureza dos números ou pelo pessimismo estatístico.
Aqui emerge o primeiro grande núcleo do discurso: a descristianização não pode justificar uma pastoral resignada. Não basta afirmar que o terreno cultural mudou. É necessário perguntar se a Igreja continua semeando o Evangelho com a confiança do Ressuscitado. O fim do clima de cristandade não autoriza uma pastoral deprimida nem legitima a redução da Igreja a mera agência social ou espaço genérico de proximidade humana. O Papa não diz à Igreja italiana que deve simplesmente adaptar-se porque “o mundo já não ajuda”. Pelo contrário, afirma algo muito mais exigente: justamente agora, quando os apoios sociológicos diminuem, o Evangelho deve voltar ao centro.
Essa afirmação constitui o verdadeiro eixo do discurso. Leão XIV evoca São Francisco de Assis, a Evangelii nuntiandi de São Paulo VI e a Evangelii gaudium do Papa Francisco para recordar que tudo nasce do encontro vivo com Cristo morto e ressuscitado, presente na Igreja. “A prioridade é o Evangelho” não é um slogan ornamental. É o critério fundamental para discernir toda ação pastoral.
Ao abrir a Assembleia, o Cardeal Zuppi ofereceu uma ampla leitura da realidade italiana e eclesial: paz, justiça, comunidade, moradia, mudanças climáticas, anúncio, sinodalidade, memória. A amplitude dessa reflexão possui sua legitimidade, porque a Igreja vive dentro da história concreta dos povos e encontra diariamente as feridas humanas do seu tempo. O Evangelho não habita um mundo abstrato separado da vida.
Contudo, é justamente aí que aparece o risco mais delicado. Quando os temas se multiplicam, o centro pode diluir-se. Quando a Igreja fala sobre tudo, precisa tornar evidente a partir de onde fala. O primeiro dom da Igreja não é uma competência sociológica, uma mediação cultural ou uma sensibilidade política. O primeiro dom da Igreja é Cristo.
Leão XIV reconduziu todo o discurso a esse núcleo essencial. Não pediu primeiramente uma Igreja mais eficiente, mais moderna ou mais bem organizada. Pediu uma Igreja capaz de deixar-se novamente gerar pelo Evangelho e, por isso mesmo, voltar a gerar para a fé.
Num tempo marcado pela queda da prática religiosa e pela dificuldade de transmissão cristã, a tentação mais imediata consiste em deslocar a atenção para os mecanismos organizativos. Multiplicam-se projetos, processos, documentos, estruturas, avaliações e linguagens técnicas. Tudo isso pode ter utilidade quando permanece a serviço do anúncio. Mas tudo se torna estéril quando substitui o anúncio.
É precisamente aqui que o Papa introduz a questão da iniciação cristã. Leão XIV recorda que ela não pode ser reduzida a um simples percurso preparatório para os Sacramentos. A comunidade cristã deve voltar a ser “útero” gerador da fé, lugar onde as pessoas são introduzidas na vida pascal, na comunhão com Cristo e na fraternidade eclesial.
Talvez essa seja a palavra mais importante de todo o discurso. A Igreja italiana é chamada a abandonar uma lógica meramente administrativa da catequese. Não basta organizar itinerários sacramentais. É necessário que a comunidade volte verdadeiramente a gerar discípulos.
A imagem do “útero” eclesial responde diretamente ao drama da descristianização. Em uma sociedade na qual a fé já não é transmitida espontaneamente pela cultura, a comunidade cristã deve recuperar sua fecundidade espiritual. A pergunta já não é apenas por que o mundo deixou de crer, mas se as comunidades ainda oferecem um lugar onde alguém possa encontrar Cristo, aprender a rezar, entrar na vida sacramental e experimentar concretamente a comunhão da Igreja.
A situação italiana manifesta de modo particularmente evidente uma crise que atravessa hoje muitas Igrejas locais. O que aparece no contexto italiano tornou-se experiência comum em boa parte do Ocidente cristão: sacramentos recebidos sem verdadeiro discipulado, pertença eclesial enfraquecida, comunidades fatigadas e uma pastoral frequentemente absorvida pela gestão ordinária.
Durante décadas, muitas comunidades sustentaram-se sobre formas de cristianismo socialmente transmitidas. As famílias encaminhavam os filhos à catequese, os Sacramentos marcavam etapas culturais do crescimento e a pertença eclesial permanecia relativamente estável. Esse mundo desapareceu. Continuar agindo como se ele ainda existisse significa correr o risco de celebrar sacramentos sem formar discípulos.
Leão XIV recoloca a pastoral diante de sua verdade originária: a Igreja é mãe porque gera para a vida nova em Cristo. Quando deixa de gerar, pode continuar funcionando organizativamente, mas manifesta precisamente aí sua pobreza mais profunda.
Também a sinodalidade é interpretada a partir desse horizonte. O Papa acolhe o Caminho Sinodal, mas ao mesmo tempo o purifica teologicamente. Afirma que a sinodalidade deve tornar-se estilo permanente da Igreja, fundada na eclesiologia do Povo de Deus e na corresponsabilidade de todos os batizados. Contudo, acrescenta um elemento decisivo: tudo deve acontecer “no respeito pela tarefa própria do Bispo”.
Essa precisão possui enorme importância. No pensamento de Leão XIV, a sinodalidade não corresponde a um parlamentarismo eclesial nem a uma redistribuição mundana de poder. Não significa substituir a estrutura sacramental da Igreja por dinâmicas assembleares. Trata-se, antes, de uma participação ordenada na comunhão e na missão.
O bispo permanece princípio visível de unidade na Igreja particular. Os carismas não são anulados, mas também não podem ser confundidos. A participação não é concessão paternalista, mas expressão concreta da comunhão eclesial. Justamente por isso, necessita de forma, discernimento e referência ao ministério apostólico.
O Papa pede à Igreja italiana que caminhe unida sem perder sua estrutura sacramental. Essa palavra é particularmente necessária numa época em que o vocabulário sinodal foi, em certos casos, fecundo e, em outros, utilizado de maneira ambígua. Escuta, discernimento, corresponsabilidade e participação são expressões valiosas quando permanecem radicadas no Evangelho, na comunhão eclesial e na fé recebida. Separadas desse fundamento, tornam-se conceitos elásticos, facilmente manipuláveis.
A reforma das próprias estruturas da CEI é submetida ao mesmo critério. Leão XIV afirma que as estruturas devem ser modeladas segundo as exigências da missão e das novas condições históricas, sem imitar esquemas organizacionais externos e sem reduzir a vida da Igreja à lógica da eficiência administrativa.
A Igreja necessita de estruturas. Nenhuma comunidade concreta vive apenas de emoções ou slogans. Mas as estruturas devem servir à missão. Quando se absolutizam, tornam-se peso; quando imitam modelos empresariais, correm o risco de perder a alma; quando buscam apenas eficiência, podem acelerar justamente o esvaziamento espiritual que pretendem combater.
A verdadeira reforma eclesial não nasce da obsessão por funcionar melhor segundo os critérios do mundo. Nasce da necessidade de anunciar Cristo com maior fidelidade, guardar a comunhão e servir o povo de Deus.
Nesse sentido, o discurso de Leão XIV pode ser lido como uma correção fraterna dirigida à Igreja italiana, mas também como um discernimento destinado a toda a Igreja contemporânea. Em muitas comunidades cristãs espalhadas pelo mundo reaparecem hoje as mesmas tentações: confiar excessivamente nos mecanismos organizativos, absolutizar processos, transformar a sinodalidade em linguagem autorreferencial ou reduzir a missão a uma gestão eficiente das estruturas.
Não se trata de negar o Caminho Sinodal nem de canonizar ingenuamente todas as suas linguagens. O Papa realiza algo mais profundo: reposiciona teologicamente esse caminho. Toma as palavras mais recorrentes da atual estação eclesial – sinodalidade, participação, reforma, processos – e as coloca novamente diante do Evangelho. Se servem ao Evangelho, devem ser acolhidas. Se o obscurecem, precisam ser purificadas. Se pretendem substituí-lo, devem ser rejeitadas.
Também a descristianização deve ser interpretada nessa chave. Ela não pode ser vista como destino inevitável nem como justificativa para a resignação pastoral. Pode tornar-se ocasião de purificação, desde que conduza a um anúncio mais límpido de Cristo. Caso produza apenas uma Igreja tímida, hesitante e excessivamente preocupada em não incomodar, então não será purificação, mas rendição.
A Igreja italiana encontra-se, portanto, diante de uma conversão concreta. Mas, em graus diversos, essa interpelação alcança hoje muitas Igrejas locais. Não se pode limitar a conservar mecanicamente aquilo que foi herdado. Mas também não se deve cair na ilusão de que tudo se resolve mudando apenas linguagens, estruturas ou procedimentos.
O Papa aponta outra direção: o retorno ao essencial. E essencial não significa minimalismo. Significa aquilo sem o qual todo o resto perde sentido. Essencial é o Evangelho, o encontro vivo com Cristo, a iniciação cristã como geração para a fé, a comunhão eclesial, a missão e o ministério apostólico.
Daí nasce também uma pergunta profundamente incômoda: qual rosto de Deus as nossas comunidades tornam visível? Uma paróquia pode possuir atividades, calendários, reuniões, organismos e projetos perfeitamente organizados. A questão decisiva permanece outra: através de tudo isso, uma pessoa encontra realmente Cristo? Aprende a rezar? Descobre a vida sacramental? É introduzida na comunhão da Igreja?
Sem essa verificação, até a pastoral mais generosa corre o risco de transformar-se em simples manutenção de estruturas.
O discurso de Leão XIV aos bispos italianos é, portanto, uma palavra forte e séria dirigida à Igreja da Itália, mas dificilmente pode ser limitado apenas ao contexto italiano. Nele ressoam questões que atravessam hoje grande parte da Igreja: a dificuldade de transmitir a fé, o enfraquecimento da pertença eclesial, a tentação do funcionalismo pastoral, o risco de uma sinodalidade reduzida a procedimento e a necessidade de recolocar o Evangelho no centro da vida cristã.
O Papa recorda que não basta falar de descristianização se essa palavra se transforma em biombo para esconder a incapacidade de gerar novos cristãos. Não basta caminhar juntos se já não se sabe para Quem se caminha. Não basta reformar estruturas se elas deixam de servir à missão. Não basta falar ao homem contemporâneo se Cristo deixa de ser anunciado.
A Igreja contemporânea possui diante de si uma tarefa exigente: voltar a gerar para a fé em um tempo que já não a pressupõe culturalmente. Isso exige bispos capazes de olhar com os olhos do Senhor, comunidades verdadeiramente geradoras, presbíteros que não se escondam atrás da mera gestão administrativa, leigos conscientes da própria vocação e estruturas eclesiais efetivamente ordenadas para a missão.
Leão XIV não pediu uma Igreja mais barulhenta nem simplesmente mais agradável ao mundo. Pediu uma Igreja mais evangélica, mais maternal e mais missionária.
Talvez aqui esteja o ponto mais exigente do seu discurso. Em um momento histórico em que alguns desejam uma Igreja rigidamente defensiva e outros uma Igreja dissolvida nas modas culturais, o Papa recorda a grande via católica: voltar ao Evangelho, permanecer na comunhão da Igreja e viver a missão.
Todo o resto, sem esse centro, pode produzir muito movimento. Mas movimento, quando já não nasce de Cristo, frequentemente não é vida. É apenas agitação bem organizada.
