Pensamentos
BENDITA INQUIETAÇÃO
Por que estou destinado à inquietação gerada pelo meu despertar para a consciência de existir? Por que eu não poderia simplesmente ser, como as árvores que vejo da janela, como as nuvens do céu, como as pedras que piso enquanto caminho, que permanecem muito mais tranquilas do que eu? A existência livre é, por definição, uma condição inquieta, dramática, às vezes até trágica.
Acreditar em Deus significa esperar que esta estranha e antinatural inquietação gerada pela existência (o cor inquietum de que Agostinho escreve no início das Confissões) não seja uma piada de mau gosto da natureza para fazer sofrer mais uma espécie animal específica em relação às outras, cumulando-a de medos e de ilusões, mas sim o sinal de uma dimensão ulterior do ser à qual é possível ter acesso e, desde já, na normalidade da vida, vivenciar (o requiescere in te, ao qual Agostinho entrega o cor inquietum).